Nossos amigos inexistentes

Mu Goblin

Quando jogava Mu Online, há décadas atrás, eu encarnava minha muito loira elfa, que vestia indefectíveis modelitos rosas da mais pura seda, e saía para caçar toda a gama de monstro, arco e flecha em mãos. A tarefa só não era o tédio total do estilo camisa-de-força “Faça parar, faça parar” por causa do meu amigo para todas as horas, meu companheiro, meu toddynho, enfim, por causa do meu goblinho.

Ele era apenas um boneco com metade do tamanho da minha elfa e não tinha utilidade real nenhuma no jogo. Como um cão de guarda indefeso até mesmo perante um bebê recém-nascido, o goblinho só tinha utilidade estética e olhe lá.

Como na maioria dos jogos, a agressão entre jogadores comia solta e eu sempre caía vítima de PKs (Player Killers). Tinha um alvo tatuado na minha bunda, metaforicamente falando.

Nada arrancava meu coração do meu peito com tanta violência que quando alguém poderoso vinha, matava o meu goblinho e zarpava para longe, me deixando de lado, indignada no meu modelito rosa de elfa. Claro, eu podia reconjurá-lo das profundezas das trevas sem tanta suadeira, mas a visão daquele bichinho verde no chão, inerte, era, enfim, foda.

Lembrei desses episódios assim que li a reportagem do Washington Post. Na introdução, o repórter conta como um coronel do exército americano interrompe uma experiência em que um robô-centopéia estava sendo usado para demonstrar como se podia detonar minas terrestre usando uma cobaia automatizada.

Conforme o bicho tinha partes de seu corpo arrancadas com a explosão das minas em que ele tocava, o coronel ficava cada vez mais amargo. Por fim, mandou suspender a experiência. Disse ele que aquilo era “desumano demais”.

Pois então, está aí um aspecto interessante dos jogos. À medida que a inteligência artificial dos outros personagens e companheiros do jogo se desenvolve, especialmente partindo para um maior dinamismo e autonomia quanto a ações e reações, mais será fácil reconhecer esse ser virtual como uma entidade completa, independente.

A partir daí, ligações afetivas são feitas em questões de segundos.

Esse ser continua sendo apenas um truque que segue uma certa rotina de comportamento definida por outro ser humano e certamente nunca apresentará espontaneidade total e real. Mas isso aqui é jogo. E, em jogo, é preciso abstrair.

Estou apenas ansioso pelo meu próximo amiguinho feito de zeros e uns.

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5 Comments on “Nossos amigos inexistentes”

  1. Platy Says:

    …acho q é um dos motivos por q pokemon faz TANTO sucesso…e nintendogs….e the sims… e tamagochi….. só pode ser.

    E talvez até blog de pessoas q nos praticamente nunca vimos na vida …. sim, pra mim vc egg (e principalmente o outro inutil q “posta” no blog) …. é um goblin feito de zeros e uns =O

    xD
    brincadeira … vc sempre estara no meu coraçãozim =’D
    =P

  2. Louis XIV Says:

    Por onde anda o Cerial?


  3. Por aqui, Louis XIV: http://www.vgbr.com/forum

    Então, Platy. Pokemon eu já não sei, mas Nintendogs e Tamagotchi sim. A grande sacada de um jogo desses são as reações dinâmicas. Em um RPG da Square, por exemplo, você mal cria um elo com um personagem pq vc sabe que aquilo é apenas um enredo rígido.

    E ah é, vai se ferrar. :D

    Maldita hora que eu fui me preocupar que você tinha morrido pq tinha parado de postar comentários no blog. Mordo a língua com todo o louvor agora.

  4. Platy Says:

    =(
    =’(
    =’O

  5. Rodrigo 'Skiter' Gatti Says:

    Bons tempos de MU Online, onde tudo que eu precisava era um pouquinho de “aúrea” :p

    Um jogo que eu particularmente adquiri uma estima incrível pelos “botzinhos” foi Harvest Moon, aquele cachorro era caresmático mor…


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